“O ego não é senhor em sua própria casa.”
— Freud, 1917, “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”
"É um alívio ser verdadeiro. O falso self exige demais. A pessoa sente-se irreal, como se estivesse apenas atuando."
(Winnicott, O Brincar e a Realidade, 1971)
Procrastinação: Quando o Medo Paralisa e o Convite à Vida
Você sente que tem procrastinado em atividades importantes de sua vida?
Sente medo de enfrentar situações do cotidiano?
Já se sentiu aprisionado, travado, estagnado; como se não conseguisse fluir?
Talvez você tenha procrastinado decisões importantes, duvidado da sua própria capacidade, sem saber qual caminho seguir.
É como se algo o puxasse para baixo, e a vida estivesse acontecendo lá fora; para os outros, mas não para você.
Essa sensação de paralisia é mais comum do que parece.
Em algum momento, todos nós enfrentamos dúvidas, medos, bloqueios.
E sim, parece mesmo que a vida segue sem a gente.
Mas quero te dizer uma coisa importante:
Existe saída.
Você pode encontrar caminhos que o coloquem em movimento novamente.
Porque viver é isso: fluir, se lançar, entrar no jogo.
Viver não é assistir da arquibancada. É jogar.
Como disse Epicuro:
“Não é o que temos, mas o que desfrutamos, que constitui a nossa abundância.”
Mas como desfrutar da vida quando estamos congelados pelo medo?
Muitas vezes, esse medo não é algo visível ou gritante.
Ele se disfarça de racionalidade, planejamento, perfeccionismo.
Pensamos demais, sentimos de menos, agimos quase nunca.
Quando não agimos, empacamos.
Quanto mais pensamos em tudo o que pode dar errado, ou certo demais, mais nos afastamos do real.
A vida se torna um plano de possibilidades nunca vividas.
Como disse Wilfred Bion:
“Pensar demais pode ser uma defesa contra o sentir.”
E sentir é parte essencial de estar vivo.
Não estou dizendo que pensar, planejar, calcular a rota é um problema.
Mas quando o pensamento nos aprisiona, quando vira labirinto e não ponte, é hora de sair dali.
Vamos sair da arquibancada, do aprisionamento, e entrar no jogo.
Vamos para o tatame, para a vida concreta, para a experiência; que nunca será perfeita, mas sempre será real.
Como nos lembra Nietzsche:
“A realidade é sempre mais rica do que qualquer fantasia.”
Talvez esse texto tenha despertado algo aí dentro.
Um convite, um incômodo, uma faísca.
Se você tem se sentido paralisado, talvez seja hora de olhar para isso com coragem e carinho.
De perceber que, sim, há saídas; e elas começam no movimento.
Me conta:
Onde você sente que está parado na vida?
E o que te ajudaria a dar o próximo passo?
A Importância de Vivenciar o Luto
O luto é um processo fundamental para que partes internas importantes possam se reorganizar, evitando sofrimento psíquico prolongado e repetições dolorosas. Nem sempre é fácil olhar para essa dor, mas é essencial acolhê-la e vivenciá-la.
Nossos afetos e emoções não mentem, são como um GPS interno. Precisam ser ouvidos, sentidos e expressos, não reprimidos. Muitas vezes, a sociedade impõe um prazo para o luto, o que gera pressões, sentimentos de culpa e até isolamento, especialmente quando ainda sentimos que a dor está presente.
Mas é importante lembrar: cada pessoa é única. Cada um ama e se vincula de forma singular. Criar laços é um movimento vital, necessário para a saúde emocional. Como disse Freud em Luto e Melancolia:
“O luto é a reação à perda de uma pessoa amada ou de alguma abstração que ocupava esse lugar.”
“O luto é o preço que se paga por amar.”
Mas o luto não envolve apenas perda de alguém, pode ser de um trabalho, relacionamento, fase da vida... Negar a dor da perda de algo ou alguém é como esconder poeira debaixo do tapete: ela não desaparece, apenas permanece oculta, causando desconforto com o tempo. Por isso, olhar, cuidar e acolher essa dor é o primeiro passo para, no seu tempo, viver uma nova fase de adaptação. O luto não pode ser apressado, ele precisa ser vivido em etapas.
Existem caminhos possíveis para tornar esse processo mais leve. Um espaço de escuta acolhedora, ética e cuidadosa pode ajudar você a atravessar essa fase com mais amparo. Respeitando seu ritmo e reconhecendo a singularidade da sua dor, é possível fortalecer suas potências internas e lidar com os desafios desse momento tão sensível.
A ferida, quando está aberta, dói muito. Mas, com cuidado, ela cicatriza. A dor diminui, e mesmo que reste uma cicatriz, parte da história de um vínculo de amor, ela não será mais como antes. Talvez continue sensível, mas já não sangra.
Lembre-se: o tempo, por si só, não cura. O que cura é o que fazemos com o tempo.
Conte comigo para caminhar ao seu lado nessa jornada de cuidado e ressignificação.
Todo trauma é, antes de tudo, pré-verbal. Ele acontece num tempo em que o corpo sente, mas a linguagem ainda não alcança, um tempo que Freud chamou de “narcísico”, anterior à organização simbólica da experiência. Por isso, o trauma não se inscreve como lembrança, mas como repetição: uma marca viva que insiste em retornar.
Shakespeare, com sua genialidade atemporal, capturou esse estado de horror bruto e sem forma. Em Macbeth, após a descoberta do rei assassinado, ele escreve:
“Horror! Horror! Horror!
Nem a língua nem o coração podem te expressar.
O caos fez agora sua obra-prima.”
— William Shakespeare, Macbeth, Ato II, Cena III
Esses versos descrevem com precisão o que a neurociência e a psicanálise vêm tentando explicar há décadas: há experiências tão avassaladoras que rompem os contornos do eu, desorganizam a psique e deixam o sujeito sem palavras, sem tempo, sem rede simbólica que sustente o vivido.
Na psicanálise, Ferenczi foi um dos primeiros a escrever que, diante de traumas precoces (como o abuso), o sujeito não consegue simbolizar o que viveu, e acaba “introjetando o trauma como um corpo estranho”.
Freud também reconheceu que, frente ao excesso, o aparelho psíquico falha em transformar a excitação em representação. O que não é simbolizado retorna como sintoma, ato falho ou repetição inconsciente.
Freud chamou de "repetição do traumático", a tendência de reviver aquilo que não pôde ser elaborado. O sujeito repete, mas sem saber que repete. O novo evento funciona como um gatilho para o que estava adormecido.
Winnicott falaria disso como um colapso que já foi vivido. Ou seja, diante de uma nova frustração psíquica, não é que o indivíduo esteja desmoronando pela primeira vez, mas que está recontando um colapso antigo, vivido num tempo em que ainda não havia estrutura psíquica nem amparo suficiente para dar forma à dor. Isso explica por que certas situações atuais parecem desproporcionalmente devastadoras.
Assim, o corpo revive o terror, a raiva, a impotência e o impulso de lutar ou fugir, mas a mente não consegue narrar o que houve. Quando as palavras não vêm, as imagens invadem: flashbacks, pesadelos, sensações físicas inexplicáveis tornam-se os únicos meios de expressão de algo que ficou sem tradução simbólica.
A linguagem se quebra. E o que sobra? Um corpo que sabe, que lembra, mas não fala.
O trauma nos leva ao limite da compreensão humana, e é por isso que histórias de fachada, versões organizadas demais, muitas vezes não dão conta da verdade subjetiva da dor.
Shakespeare parece antecipar tudo isso ao dizer que “o caos fez sua obra-prima”.
O trauma é, muitas vezes, essa obra-prima do caos: não se conta, não se representa. Apenas se repete, se sente, se revive; até que encontre espaço, afeto e escuta para se transformar em palavra e cuidado.
Na análise, esse espaço se abre. Um espaço de confiança, presença e escuta afetiva, onde as dores silenciadas podem, pouco a pouco, ganhar linguagem ou outras formas de expressão simbólica. É nesse processo que começamos a mobilizar recursos internos para elaborar o que um dia foi excessivo demais para ser vivido com inteireza.
“As raízes da resiliência estão na sensação de ser compreendido por alguém que se importa — alguém em sintonia conosco e capaz de nos ajudar a retomar o controle.”
— Bessel van der Kolk, O Corpo Guarda as Marcas
E você?
Talvez esse texto tenha despertado algo aí dentro.
Um aperto no peito, uma memória esquecida, um desejo antigo de respirar com mais leveza.
Se você tem se sentido paralisado, confuso ou sozinho diante das suas dores, talvez seja hora de acolher isso com um pouco mais de gentileza.
Traumas não são sentenças, são histórias que ainda não encontraram palavras.
E todo processo de cura começa por escutar o que foi calado.
A análise é esse lugar de escuta e reconstrução.
Um espaço onde as feridas podem deixar de ser prisão para se tornar travessia.
Onde o corpo e a alma começam, juntos, a escrever uma nova narrativa.
E a arte e outras formas de expressão também podem te ajudar nesse processo.
Me conta:
Onde dói em você?
Que parte sua está precisando ser ouvida?
O que você sente que precisa para seguir?
Se quiser, a gente pode conversar sobre isso.
Com afeto, presença e respeito pelo seu tempo.
Você não está sozinho.
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Freud e o estudo do trauma
Freud se interessou pelo estudo do trauma ao perceber que alguns protocolos médicos não eram eficazes para tratar certos pacientes. Ele notou que havia algo que não podia ser explicado apenas por questões físicas.
Essas pacientes apresentavam quadros conhecidos, no século XIX, como “histeria”; termo que, do grego, significa “útero”. Sem saber explicar o fenômeno, alguns médicos as acusavam de estar mentindo.
Freud se aprofundou nos casos estudados por Charcot e Pierre Janet. Esses estudos mostraram que sintomas físicos (como paralisias e convulsões) podiam surgir sem causa neurológica e estavam ligados a memórias traumáticas dissociadas.
Os pacientes não apresentavam narrativas coerentes sobre o que havia acontecido; traziam apenas fragmentos, vestígios e sensações, memórias incompletas.
Para Freud, “os histéricos sofrem de reminiscências”.
Ou seja, carregam memórias traumáticas e afetos reprimidos que não foram integrados ou processados, e que retornam para influenciar o presente e o futuro.
Pierre Janet e os tipos de memória
Pierre Janet destacou a diferença entre dois tipos de memória:
Memória narrativa (história coerente): são memórias flexíveis, que se transformam com o tempo. A pessoa vivencia algo agradável ou cotidiano e essa lembrança se integra à sua história de vida, alterando-se conforme outras experiências acontecem.
Memória traumática (fragmentos sensoriais e emocionais disparados por gatilhos específicos): essas memórias permanecem intactas, sem se alterar com o tempo, pois não se integram às demais experiências. É como se ficassem à parte da memória autobiográfica, isoladas.
Van der Kolk complementa que as lembranças cotidianas são maleáveis, mas as experiências traumáticas tendem a permanecer dolorosamente presas ao corpo e à mente.
Quando o nível de alerta é alto, a lógica e a estrutura narrativa cedem espaço à reação emocional pura. Isso ocorre porque o sistema límbico é ativado intensamente, enquanto áreas responsáveis por organizar narrativas (como hipocampo e tálamo) são inibidas. Assim, recordações traumáticas são armazenadas como fragmentos soltos: imagens, sensações e emoções sem coesão temporal.
Janet, e depois Freud, perceberam que o trauma cria uma espécie de “duplo eu”. É como um rio que, ao encontrar um obstáculo, se divide: uma parte segue adiante, mas outra fica presa. Essas partes estagnadas se desintegram e o fluxo da vida se torna fragmentado,dissociado.
O inconsciente e a repetição
Não lembrar de algo não significa que o vivido desapareceu. Pelo contrário: ele permanece no inconsciente, intacto.
A pessoa pode não ter recordação consciente do fato, apenas flashblacks e também tende a repeti-lo de alguma forma, atuando (acting out).
Como dizia Freud, “o ego não é senhor em sua própria casa”.
Por isso, muitas vezes repetimos comportamentos que não desejamos. Há algo ali que nos marcou, mas não foi elaborado; afeto e representação não estão alinhados.
Winnicott enfatiza que esses elementos precisam ser integrados.
O papel da análise
Para transformar esse padrão silencioso, é preciso acessar as emoções ligadas ao evento traumático. Isso pode acontecer na análise, por meio da transferência, uma relação de confiança e cuidado na qual paciente e analista trabalham juntos.
Na transferência, a forma de amar, odiar, se relacionar e estar no mundo se manifesta, permitindo que o afeto seja acolhido e ressignificado.
Talvez você ache que não precisa de análise agora. Mas pense: a forma como você sente e pensa hoje está conduzindo a vida que você realmente deseja?
Ao acessar as emoções ligadas ao trauma, as memórias fragmentadas ganham forma e podem se integrar. Você passa a associar partes antes separadas, unindo afeto, emoção e narrativa. E assim, reconstruindo o fluxo da sua história de maneira mais consciênte e da melhor forma possível.
“Quem canta seus males espanta”.
Tantas vezes repetimos esse ditado popular sem pensar que ele carrega uma sabedoria que atravessa o tempo, a de que a voz, o corpo e o encontro com o outro, através de experiências como o canto coral, têm potência de espantar os males que nos afligem e trazer benefícios e transformações.
No ambiente corporativo, pensar em saúde emocional e qualidade das relações torna-se cada vez mais necessário. Esse contexto é fortemente marcado por demandas técnicas, responsabilidades constantes, estresse, sobrecarga e dificuldades nas relações interpessoais. Acabamos por viver numa lógica de funcionamento contínuo, em que precisamos estar cada vez mais disponíveis, conectados e produzindo.
Infelizmente, essa disponibilidade constante pode produzir efeitos negativos, tais como: estresse, sensação de urgência permanente, dificuldade de desacelerar etc. Estes efeitos impactam diretamente a nossa saúde e a forma como nos relacionamos uns com os outros.
Isso nos traz uma questão importante: como criar espaços de respiro dentro do próprio trabalho?
É nesse contexto que o canto coral se apresenta como uma experiência profundamente potente.
A voz e o canto nos atravessam desde cedo, ocupando um lugar constitutivo na nossa formação como sujeitos. Ainda no início da vida, é pela voz do Outro, como por exemplo, nas canções de ninar, que começamos a nos acalmar, a nos organizar, a experimentar alguma forma de segurança e sustentação.
O canto que ressoa numa experiência de coro não se limita a uma estética artística. Ela também atravessa o sujeito e possibilita que ele seja tocado por uma experiência e uma nova posição além do automatismo.
Através de experiências como essa, que envolvem corpo, emoção e vínculo, algo novo pode emergir. Isso porque cantar é também uma forma de sustentar a sua própria voz, através de uma presença possível que envolve outras vozes que ajudam a se regular numa mesma sintonia.
Nessa sintonia, a respiração se organiza, o ritmo desacelera e a escuta se amplia. Além disso, há algo mais importante que acontece nesse processo, a pausa.
Contudo, não é qualquer pausa, como algo vazio ou para produzir mais depois. Trata-se de uma interrupção do automatismo, um momento em que o sujeito tem a possibilidade de sair, ainda que por instantes, da lógica do desempenho, de um funcionamento automático e não se preocupar tanto com o que tem de fazer. Ao invés disso, se permite criar uma nova maneira de se olhar, de se relacionar com o mundo e consigo.
É poder experimentar outras atividades como cantar, estar presente, se permitir, verdadeiramente, se vincular e expandir essa experiência. Isso produz efeitos positivos, como, melhor comunicação e atenção consigo e com os outros.
Não se trata de não produzir, mas perceber que também é possível pausar, descansar, se permitir algo além dessa posição que ocupa no trabalho.
Há tempo de produzir e tempo de pausar, de som e de silêncio. Saber que é possível e saudável mudar de posição, pois quando estamos inseridos numa mesma lógica, como a de desempenho contínuo, em que o descanso não é permitido, isso pode levar à exaustão, ao burnout e à depressão.
O coral cria um espaço de respiro, de pausa, onde se pode experimentar algo novo, onde é possível desacelerar o ritmo, onde nem tudo precisa ser dito, mas pode ser vivido.
A crença de que o ambiente profissional precisa apenas da racionalidade e do desempenho tem trazido consequências significativas para a saúde dos colaboradores. O corpo e as emoções nunca estiveram ausentes, pois toda experiência humana envolve corpo, mente e emoção, de forma integrada.
Em tempos de funcionamento contínuo, em que tudo se mistura e estamos disponíveis a todo momento, sem uma separação nítida de espaços de trabalho e outras áreas; torna-se necessário um olhar mais integral entre razão e emoção, sujeito individual e relacional, produtividade e repouso.
A psicanálise já indicava algo nessa direção, ao pensar o sujeito como inseparável de sua experiência corporal e relacional. Atualmente, o diálogo com a neurociência reforça essa compreensão, pois somos uma integração entre corpo, história e experiência.
Bessel Van der Kolk, em seu livro “O corpo guarda marcas”, observa que experiências coletivas como o canto coral auxiliam na sintonia e formação de vínculos. Segundo o autor, a tensão e o estresse não desaparecem, mas permanecem inscritos no corpo, influenciando a forma como reagimos e nos relacionamos.
O ambiente corporativo não está imune a esses efeitos negativos descritos por Van der Kolk. Situações de pressão constante e emergência de disponibilidade podem nos manter em estado contínuo de alerta, gerando ansiedade, irritabilidade, dificuldades de concentração e conflitos interpessoais.
Nessa perspectiva, voltamos à importância da pausa, pois quando ela não acontece, não há tempo para elaborar, sentir ou integrar a experiência.
E aqui, a psicanálise nos orienta da seguinte maneira: o tempo psíquico não segue a lógica da produtividade. Pelo contrário, às vezes, é o corte, o break no trabalho, e não a continuidade, que produz efeito.
Devido a todo esse excesso de demanda que se apresenta, o coral pode ser pensado como esse corte, essa interrupção necessária. Pode ser visto como uma pausa que produz efeito, um espaço que suspende, ainda que por instantes, o fluxo automático da produtividade e inaugura outro tempo, o da escuta, da respiração e da presença.
Atualmente, até mesmo o descanso, muitas vezes, é capturado pela lógica do desempenho. Descansa-se para produzir mais. Talvez seja justamente por isso que o canto coral surge como esse respiro que produz efeito.
A voz como via de regulação
Freud já afirmava que o eu é, antes de tudo, um eu corporal. Ele se constitui a partir das experiências do corpo em relação com o outro, de um do encontro que sustenta.
Winnicott, por sua vez, mostrou que para que o sujeito exista, é necessário um ambiente, suficientemente, bom.
Assim, podemos observar que nem tudo que vivenciamos se transforma em palavra. Há experiências que permanecem como sensação, tensão e silêncio.
A voz ocupa um lugar singular, pois ela nasce no corpo, mas só existe, plenamente, no encontro com o outro.
Segundo Stephen Porges, nosso sistema nervoso responde constantemente a sinais de segurança ou ameaça, sendo que a voz é um dos principais mediadores dessa percepção. Um tom de voz acolhedor acalma e, se associado a um ritmo mais lento, ajuda a regular a tensão.
Cantar, nesse sentido, é uma forma de reorganização interna, de sintonia consigo e com o mundo, e de estar presente.
Experiências como o canto coral interferem e modelam o organismo, como demonstrado pela epigenética e a neuroplasticidade do cérebro. Assim, o canto coral não atua apenas no campo simbólico, mas também na própria modulação, evidenciando que aquilo que vivemos nos transforma, inclusive em nível biológico.
Como demonstra a matéria veiculada pela BBC News, cantar, especialmente, em grupo, pode trazer benefícios cognitivos, emocionais e físicos, incluindo redução do estresse, melhora respiratória e fortalecimento do sistema imunológico.
Respirar de forma lenta e profunda, por exemplo, ativa o sistema parassimpático, associado ao relaxamento e à sensação de segurança. É exatamente isso que o canto trabalha, a respiração, o ritmo, a escuta e a presença. Assim, cantar não é apenas emitir sons, é vivenciar experiências que transformam.
O canto coral como experiência de sintonia
Diferente de uma atividade individual, o canto coral acontece no encontro. Obviamente, cada voz é singular, com suas próprias características de timbre, cor, extensão etc., mas precisa se ajustar ao conjunto. É preciso escutar, esperar entrar no tempo, sustentar o próprio som sem sobrepor ao outro.
As vozes se escutam, se completam e harmonizam. A respiração se compartilha e o ritmo se constrói no coletivo. É um exercício contínuo de sintonia e é isso que torna o coral um espaço de construção de laços com efeitos reais sobre o funcionamento psíquico e relacional.
O que não se diz… mas se sente
Há experiências que não encontram lugar na linguagem. De Freud a Lacan, a psicanálise nos mostra que há sempre um resto, o real que escapa à simbolização. Esse indizível não desaparece. Ele retorna como: tensão, mal-estar, repetição, dificuldade de relação.
No ambiente de trabalho, muitas vezes, não há espaço para isso. E, ainda assim, isso circula. Nesse contexto, o canto coral pode funcionar como uma via alternativa de elaboração.
Não se trata de buscar sentido em tudo, mas de encontrar outras possibilidades. Nessa perspectiva, o corpo encontra uma forma de dar passagem ao que não cabia em palavras. Não se trata de substituir a fala, mas de ampliar as possibilidades de elaboração.
Nesse sentido, a ideia de que “a beleza salvará o mundo”, como escreveu Dostoiévski, pode ser compreendida não como estética, mas como experiência, algo que não se explica, mas se vive e transforma.
No coral, essa beleza aparece no encontro e na harmonia possível entre as diferenças. Nessa construção coletiva, que é exatamente a diferença que constrói as possibilidades de harmonização (vozes graves e agudas, masculinas e femininas, diferentes timbres, formando um todo que se completa etc.).
Nessa experiência coletiva do outro como um outro, em que as diferentes vozes ressoam cada uma à sua maneira, embora buscando sincronização e a uniformização do som, mas sem, contudo, ser na lógica da sobreposição, instrumentalização e transformação da outra voz no meu próprio eco. É poder experimentar como o belo pode se manifestar na experiência de autenticidade, nas diferenças juntas, na alteridade etc., ecoando diferentes vozes e pontos de vista.
É poder vivenciar a experiência de ultrapassar a meta da individualidade, com a presença do outro, o que confere sustentação à nossa existência, que não precisa estar batalhando o tempo todo para sobreviver e continuar existindo.
Impactos no ambiente corporativo
Do ponto de vista organizacional também há benefícios, pois essas experiências coletivas, que permitem transformações como o canto coral, abrem caminho para inúmeros benefícios no ambiente de trabalho:
– redução do estresse e da ansiedade
– melhora na comunicação
– fortalecimento de vínculos
– aumento da cooperação
– sensação de pertencimento
– desenvolvimento da escuta
– maior abertura ao outro
Conforme salientado na matéria veiculada pela BBC News, é uma via de mão dupla, pois os benefícios não se limitam ao bem-estar pessoal, mas se reverte em ganho para a organização.
Conclusão: quando a experiência transforma
Nem tudo pode ser resolvido por estratégias, metas ou reuniões. Há dimensões da experiência que pedem corpo, presença e vivência.
O canto coral oferece exatamente isso, um espaço onde o sujeito pode respirar, escutar, se afetar e, pouco a pouco, se sintonizar consigo e com os outros.
Sabemos que o ambiente corporativo é atravessado por pressões, automatismo e aceleração. Assim, mesmo sem perceber, entramos na lógica de disponibilidade contínua.
Nesse contexto, o canto coral funciona como respiro, um break na lógica do estar sempre disponível, pois possibilita novas formas de estar em um ambiente sem se perder de si.
Cantar junto pode ser uma forma de lembrar que ainda há espaço para o descanso, para o encontro, para experimentar a vida.
Dessa forma, aquilo que, muitas vezes, não conseguimos dizer, mas que insiste em se manifestar, encontra no canto e no coletivo uma forma de existir de maneira mais autêntica. A partir dessa conexão, é possível experimentar uma nova maneira de olhar, se relacionar com as coisas, com as pessoas e consigo mesmo.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.
PORGES, Stephen W. A teoria polivagal: fundamentos neurofisiológicos das emoções, apego, comunicação e autorregulação. Rio de Janeiro: Sensus, 2021.
BBC NEWS BRASIL. Cantar em grupo faz bem à saúde física e mental, indicam estudos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese. Acesso em: [colocar data de acesso].
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O idiota. São Paulo: Editora 34, 2002.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
✍️ Lucimar de Oliveira
Psicanalista | Especialista em Neurociências das Emoções e Sentimentos | Especialista em Arteterapia
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